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O silêncio dos inocentes PDF Imprimir E-mail

Pela passagem do Dia Nacional de Combate ao Câncer

 

Eles são centenas ou milhares. Magros, doentes e inconvenientes. Transportados de qualquer jeito, amontoados e calados. Eles não querem muito. Apenas ser tratados como seres humanos e não como um número nas estatísticas.

 

De Arcoverde, Pesqueira, Lagedo ou Garanhuns, em direção a Recife, ou a qualquer outro centro de tratamento de alta complexidade, eles chegam aos milhares num desfile macabro que se repete quase diariamente, na esperança de aliviar seu sofrimento, sob nossos olhares indiferentes.

Mas quem se importa com as suas dores e os seus tumores?

O câncer os abateu e a frieza da cidade grande os esqueceu. A despeito de tudo eles vêm. Sem nada pedir. O seu semblante é incômodo porque nos joga na cara a nossa omissão e o nosso descaso com a dor alheia.

Eles se transformaram em invisíveis sombras humanas, diante do admirável mundo novo das grandes metrópoles, sem direitos, sem vez e sem voz.

Sequer sabem se voltarão as suas cidades ou se verão mais uma vez suas famílias. Na bagagem apenas a dor, o abandono e a incerteza misturados a um par de sandálias e alguns documentos amarrotados em um saco plástico.

A todo esse quadro se sobrepõe a humilhação de ter que permanecer durante o tratamento em “pousadas” ou “casas de apoio”, uma espécie de submundo do câncer. Lugares inadequados, improvisados e inóspitos, frutos da ação de meia dúzia de abnegados e que ainda se mantém funcionando graças à caridade de uma minoria.

Como animais feridos e acuados, arrancados do seu mundo eles sacolejam em conduções mal ajambradas.

Abandonados por quem de direito, entregues à própria sorte ou ao próprio azar, eles tentam, obstinadamente, sobreviver. Sem idade e sem identidade, sem um lugar onde possam repousar seus corpos mutilados e sua alma atribulada, se tornaram a mais completa tradução do desprezo.

Eles são uma afronta as nossas frivolidades. Estamos por demais ocupados na correria frenética em busca engordar o saldo bancário e aumentar o patrimônio. Mas será que teremos vida suficiente para usufruir de tudo que temos acumulado?

Alguns poucos mais privilegiados que até enriqueceram com a indústria do câncer mas, igualmente anestesiados pelo excesso de bens de consumo ignoram solenemente esse holocausto tupiniquim. Na sua pauta não cabem temas tão escabrosos, afinal já vivem estressados com a queda do dólar, a guerra cambial, as trapalhadas do ENEM, o Tiririca, a política, o noivado do príncipe Williams e outros temas de grande relevância. Sem falar nas festas natalinas que se aproximam, as férias, as viagens, os presentes e as barulhentas confraternizações de fim de ano.

E nas noites de domingo, enquanto assistimos confortavelmente aos programas domingueiros na TV, essas pobres criaturas iniciarão mais uma romaria que se repetirá todas as semanas até que um dia a sociedade civil, envergonhada desse horror, resolva fazer algo por essa sofrida parcela da população.

O ICT- Instituto Cristina Tavares de Apoio ao Adulto com Câncer tem como um dos seus principais objetivos institucionalizar esses abrigos, construindo um espaço apropriado, onde o adulto, proveniente do interior, possa permanecer durante o tratamento de câncer no Recife. Uma obra que não vai levar mais que um percentual infinitesimal da sobra do supérfluo das classes mais abastadas, mas de fundamental importância para a inclusão desses pacientes nos padrões mínimos da dignidade humana.

E por se tratar de direitos humanos fundamentais esse tema deveria fazer parte da agenda da sociedade civil, em especial das pessoas e das instituições envolvidas direta ou indiretamente com essa chaga social invisível, causadora de uma dor generalizada e silenciosa chamada insensibilidade.

 

Antonieta Barbosa

Advogada, paciente de câncer, diretora do ICT-Inst. Cristina Tavares de Apoio ao Adulto com Câncer e autora do livro “Câncer – Direito e Cidadania”

 
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