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No dia em que completei 25 anos de trabalho no serviço público, resolvi me aposentar proporcionalmente para me dedicar à carreira jurídica. Aprovada na penúltima fase no concurso para a magistratura a legislação mudou, vedando a acumulação de proventos de aposentadoria com vencimentos de cargo público.
Impedida de exercer qualquer função pública fui convidada para me integrar a um escritório de advocacia no bairro da Boa Vista no Recife.
Poucos meses depois percebi um nódulo na mama esquerda ao qual não dei importância, pois fazia exames preventivos todos os anos e tinha uma vida saudável.
Como o nódulo começou a aumentar decidi fazer uma mamografia que acusou “nódulo sólido com características benignas”. Por precaução resolvi retirá-lo para que fosse biopsiado, cujo resultado confirmou um diagnóstico inesperado e assustador: câncer de mama.
Mal sabia que aquele papel onde estava escrito “carcinoma ductal infiltrante” mudaria para sempre a minha vida e a de milhares de pessoas que, direta ou indiretamente, foram ajudadas pelo meu trabalho.
Atordoada com o diagnóstico e todas as conseqüências e incertezas que ele acarreta iniciei o tratamento proposto que consistia em uma quadrantectomia (retirada e ¼ da mama) com esvaziamento dos gânglios axilares.
Mesmo sem retirar toda a mama o impacto da mutilação e a perspectiva de um tratamento longo e agressivo acarretaram uma depressão que se prolongou por todo o período da quimioterapia e da radioterapia.
Afastada do convívio social e profissional comecei a pesquisar a legislação, tentando buscar uma saída para minimizar os custos do tratamento, dos medicamentos e do novo estilo de vida. Passei a precisar de acompanhamento psicológico, fisioterápico, medicamentos de uso contínuo, alimentação especial, além consultas e exames periódicos de revisão para o resto da vida.
No convívio com outros pacientes percebi a mesma aflição: gastos inesperados, redução dos rendimentos e em muitos casos desemprego, discriminação, desamparo pelo poder público e pela sociedade de um modo geral.
Atenta a essa realidade e sensibilizada com as histórias que ouvia e as situações de humilhação que presenciava, mesmo fragilizada, decidi fazer alguma coisa para ajudar as pessoas que passavam pela mesma situação, porém em condições muito mais precárias, sem informação, sem convenio de saúde, sem acesso aos tratamentos e medicamentos, sem recursos, enfim, órfãos de cidadania.
A partir de então todos os benefícios e informações que eu conseguia repassava para o maior número possível de pacientes, ensinando-lhes “o caminho das pedras”.
Fiz na época, um pequeno resumo da legislação e passei a distribuir nos hospitais, clínicas oncológicas, grupos de apoio, enfim onde existissem pacientes de câncer em tratamento.
Essas informações se propagaram, aumentando as demandas por outras informações, inclusive vindas de outras cidades e até de outros estados.
Diante dessa demanda, do vazio bibliográfico existente e da complicação e pulverização da nossa legislação, resolvi condensar todo esse acervo em um único volume que se transformou no livro “CÂNCER – DIREITO E CIDADANIA”.
O livro foi lançado em 2002, no Recife em edição reduzida de apenas 500 exemplares que esgotaram em uma semana devido ao impacto na mídia e na sociedade em geral.
Na época, sem encontrar uma editora que acreditasse no projeto, vendi o meu próprio carro e banquei sozinha os custos da 1ª edição. Uma semana depois tive que encomendar às pressas mais 2.000 exemplares que igualmente acabaram em tempo recorde.
Em 2003 surgiu a proposta de uma editora em São Paulo e como não havia a menor condição de administrar edição, distribuição, divulgação e comercialização do livro, assinei o contrato e hoje o livro encontra-se na 12ª edição.
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